Por Renato Soeiro

Um dos grandes “mistérios” do 25 de Abril é o facto de um regime com quase meio século de existência, que durante décadas de intenso trabalho ideológico e organizativo se foi enraizando em todo o complexo tecido social, institucional, político, administrativo, económico, cultural e religioso do país, se ter desmoronado sem resistência assinalável após os primeiros abanões da revolução.

Que foi feito dos defensores do regime? Daqueles que, a todos os níveis das diferentes hierarquias, o faziam funcionar? Daqueles que enchiam ruas e praças em manifestações de louvor e gratidão aos chefes? Eclipsaram-se todos de um momento para o outro? Ou tínhamos um forte regime fascista em Portugal, mas não tínhamos fascistas portugueses? Ou será que viraram todos a casaca e fizeram uma adesão em massa aos ideais da liberdade e da democracia que combatiam tão convictamente na semana anterior?

É bem provável que todas estas hipóteses contenham um pouco da resposta àquele mistério. Mas muitos apenas se acobardaram, abandonaram os seus líderes à sua triste sorte e, mantendo discretamente as suas convicções (que uma ideologia não se despe como quem muda de camisa), esperaram melhores dias para organizar o contra-ataque.

Se é um facto que, dada a curta distância histórica que nos separa de 1974, ainda há muitos resistentes anti-fascistas vivos e bem activos na política portuguesa, decorre logicamente que também haverá ainda muitos fascistas vivos e activos (para não falar nos novos recrutas que eles possam entretanto ter convencido das virtudes exemplares do antigo regime). Onde andam e a que se dedicam os apoiantes do antigamente? Quais as suas causas actuais, que batalhas e actividades têm hoje a sua marca? Onde se organizam?

Acaba de ser publicado um livro que dá uma preciosa ajuda para se perceber melhor por onde andaram, o que fizeram e com quem, que métodos usaram na primeira década da democracia esses saudosos órfãos da ditadura. Um livro que é um acontecimento editorial de grande alcance pelo seu relato histórico, mas também porque nos dá imensas e preciosas lições sobre os cuidados a ter se o nosso país quiser continuar num caminho de progresso e de avanço social, pondo em causa os interesses daqueles que sempre lucraram com a miséria alheia.

Um livro que absolutamente se recomenda. O seu título: “Quando Portugal ardeu”; o seu autor: Miguel Carvalho; uma edição da Oficina do Livro.

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