Sobre a falta de debates públicos que ajudem à formação política ao longo da vida e combatam a abstenção, a ignorância e o populismo, pode ler aqui a intervenção da eleita do Bloco na última Assembleia de Freguesia de Gulpilhares e Valadares:

Margarida Moreira (Bloco de Esquerda)

A dias de termos comemorado o 25 de Abril e antes de comemorarmos o 1º de Maio, este é o momento em que habitualmente fazemos um pequeno balanço, um ponto da situação da nossa sociedade e da nossa democracia.

 Apesar das naturais diferenças de opinião, parece haver um ponto em que todos concordamos: as altas taxas de abstenção eleitoral e um enorme desinteresse de uma parte significativa da população pela vida política em geral, são uma debilidade séria da nossa sociedade e do nosso sistema democrático.

E, a prazo, poderão mesmo ser um perigo real, porque este é o campo fértil em que medra a ignorância, o populismo e os piores ataques à democracia.

Esta preocupante situação é, certamente, consequência de muitos factores, mas o mais evidente (parece-me) é a profunda e antiga falta de preparação política da população, falta de conhecimento das matérias em debate e dos mecanismos de decisão.

Hoje em dia, ninguém exerce uma função profissional sem ter um mínimo de informação, de formação, de aprendizagem, que se quer aliás continuada ao longo da vida.

Sendo todos os habitantes também eleitores (ou vindo a sê-lo no futuro), seria essencial que tivessem à sua disposição oportunidades continuadas de aprendizagem das questões políticas, de forma a permitir-lhes uma prática cidadã mais activa e mais consciente.

No entanto, temos de reconhecer que não tem havido essa preocupação, nem por parte das autarquias, nem por parte do Estado central. Não há qualquer plano, nem qualquer iniciativa regular para promover a educação política dos portugueses.

É certamente estranho que as Juntas de Freguesia – a nossa, as outras de Gaia, as do país – os órgãos de poder político mais próximos dos cidadãos, não se preocupem minimamente com a formação política desses mesmos cidadãos (de quem depende aliás a sua eleição).

Quando é que os habitantes desta freguesia, como os das outras, têm alguma oportunidade de assistir e participar num debate político?

Na melhor das hipóteses, de quatro em quatro anos, quando há eleições e, mesmo aí com a participação que conhecemos.

“Só aparecem quando há eleições” – queixam-se as pessoas e, temos de reconhecer, cheiinhas de razão. Aparecemos muitas vezes, para muita coisa, para nunca para debater política e esclarecer as nossas posições.

Eu penso que este grau zero da formação política, praticado por quem tem as maiores responsabilidades locais, está directamente ligado à abstenção e ao desinteresse pela causa pública.

Mas – agora pergunto eu – qual é a dificuldade de organizar debates regulares, onde representantes dos vários partidos exponham as suas posições e debatam abertamente? Isso nem acarreta qualquer custo para o nosso orçamento. E nem precisamos de ser nós a falar.

É verdade que todos os dias há debates políticos na televisão.

Mas será que queremos abdicar no pequeno écran as nossas obrigações de contribuir directa e pessoalmente para a formação dos habitantes que moram na nossa terra?

A democracia precisa de populações participantes e bem informadas. E exige que nós, os actores políticos, nos disponibilizemos para levar as nossas opiniões até onde as pessoas estão, em debates plurais sobre todos os temas mais relevantes da actualidade.

Podemos fazer isso nos edifícios da Junta, mas as muitas colectividades que temos podem ser uma base logística importante para levar essas acções pedagógicas ainda mais próximo dos moradores, aumentando a sua participação.

É este o desafio que hoje vos deixo.

Uma noite por mês dedicada a uma causa tão importante não parece ser um sacrifício muito exagerado para quem, como nós, resolveu dedicar-se ao nobre serviço público da actividade política.

Muito obrigada.