[ Texto de Renato Soeiro para o semanário “O Gaiense” de 21 de Julho de 2018 ]

 

Não podia deixar de responder positivamente ao convite d’O Gaiense para dirigir umas palavras aos leitores sobre a morte de João Semedo, um dos mais prestigiados políticos portugueses e um dos mais admirados dirigentes do Bloco de Esquerda.

Nestes dias que se seguiram à sua morte, todos ficaram a conhecer melhor o João, tal a quantidade de artigos de jornal, de programas de televisão, de testemunhos vindos de todos os quadrantes políticos, sublinhando as qualidades e a grandeza do político e do homem que o país acaba de perder.

Talvez seja um bom momento para reflectirmos neste defeito bem português de darmos mais valor às pessoas depois de as perdermos. Não que o João não tenha sido respeitadíssimo em vida: sempre foi. Mas hoje talvez muitos compreendam que deveria ter sido ainda mais.

O João Semedo foi candidato à Câmara de Gaia em 2009 e os gaienses não o elegeram para vereador. Conhecendo-o hoje melhor, podem pensar no que perderam, no enorme contributo que poderia ter dado para a elevação da nossa gestão municipal, para a qualidade de vida sobretudo dos nossos concidadãos para quem a vida é mais dura e difícil, que sempre foram os destinatários privilegiados da atenção e da acção política do Semedo.

Com um especial destaque na área da saúde em que, como médico e como político, deu contributos de inestimável qualidade e que vão ser de enorme relevância para enfrentarmos a difícil situação que o nosso Serviço Nacional de Saúde atravessa, fruto do desgaste que intencionalmente lhe tem sido causado em benefício dos negócios privados, que continuam a sugar os recursos que deveriam ser usados para benefício de todos.

Um dos grandes legados que nos deixa João Semedo, fê-lo em conjunto com outro grande político, o “pai do SNS” António Arnaut, um bloquista e um socialista, ambos conscientes da sua morte iminente e da urgência de lançar um alerta lúcido à sociedade e uma proposta detalhada de uma nova lei que possa salvar esta conquista fundamental da nossa democracia. Esta proposta de lei já foi entregue pelo Bloco no Parlamento e veremos se as palavras de profundo elogio dirigidas a cada um dos seus autores aquando das suas mortes recentes são concretizadas na aprovação da lei que nos deixaram como último contributo das suas vidas ao serviço de todos nós.

Uma coisa a morte de João Semedo veio definitivamente demonstrar: a falsidade da frase de que “os políticos são todos iguais”. Não, não são. Essa afirmação, por vezes puramente boçal e ignorante, por vezes expressão de um intencional veneno anti-democrático, esbarra fatalmente em exemplos de vida como a de João Semedo: pura e desinteressada dedicação à causa pública. Que o exemplo deste homem que parte possa inspirar os políticos que ficam. E faça pensar todo o povo que os elege (ou não elege).