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Não há estrelas no céu

Miguel Guedes

Miguel Guedes

Músico e jurista.

Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.

Publicado em: “Jornal de Notícias”, 18 de Maio de 2016

A canção que o Brasil agora entoa sob o lema de “Ordem e Progresso” ecoa negra, enquistada e com a solenidade histórica que os solitários dramas de juventude cantados por Rui Veloso em “Mingos & Os samurais” nunca poderiam ter. Na verdade, pior do que não haver estrelas é quando elas faltam.

A bandeira presente no logótipo do Governo do presidente interino Michel Temer tem cinco estrelas a menos do que actual bandeira democrática do Brasil e apropria-se da simbologia da bandeira brasileira que esvoaçava no período de parte da Quarta República (1946-1964) e da Ditadura Militar (1964-1985). Na simbologia, sente-se a falta de tudo menos do antigamente. Cinco das actuais 27 estrelas “sumiram”. Saudosos, os filhos e contra-regras do Governo do general Costa e Silva, no armário desde a ditadura, podem sacudir o pó das bandeiras. Ei-lo de volta, o Brasil dos generais à boleia do Brasil da corrupção.

Antes de nomear ministros para um Governo sem votos ou de apresentar a sua primeira medida, o simbolismo da adopção de um símbolo da ditadura como marca de água de um golpe de estado diz bem sobre a dimensão do assalto. Um logótipo que mais se assemelha a uma revisão datada da simbologia da TV Globo. O homem do marketing do PMDB, Elsinho Mouco, enfatiza a necessidade de Michel Temer se encostar junto à opinião do povo e até assegura que a escolha foi da responsabilidade do filho de 7 anos do presidente interino. Mas não consta que o povo desdenhe as estrelas como o ex-vice de Dilma Rousseff desdenha a democracia. Em 180 dias, perante uma contestação que pode rasgar a pátria simetricamente entre o verde e o amarelo, até a revisão da própria bandeira do Brasil já parece ser uma possibilidade que se lê nas estrelas.

As constelações representadas na bandeira do Brasil são inspiradas na forma como se via o céu do Rio de Janeiro, às 8.30 horas da manhã, no dia da Proclamação da República, a 15 de Novembro de 1889. Mas essa está longe de ser a única certeza que Michel Temer tem na vida. Já em Abril deste ano, na semana da votação no plenário da Câmara de Deputados, enviara a vários deputados do seu partido (supostamente, por lapso) uma mensagem de voz de 14 minutos com o discurso que faria ao povo brasileiro após a admissão do processo de destituição de Dilma. Terá lido nas estrelas, tal a ânsia. O presidente interino do Brasil poderá conseguir retirar todas as estrelas da bandeira neste hiato à democracia. Mas dificilmente conseguirá apagar o brilho das estrelas do céu de um país que, apesar da corrupção transversal a todos os partidos e sectores, não está disposto a ser devolvido à longa noite dos generais. Mesmo que seja colocado, como na canção escrevia Carlos Tê, “entre a espada e a parede”.

 

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Textos anteriores:

Miguel Guedes – O pacto com o Diabo

Renato Soeiro – Retorno à normalidade